Romeu Zema em 2026: o gestor de Minas consegue governar Brasília?

Romeu Zema 2026

Romeu Zema chega à eleição presidencial de 2026 com um ativo que poucos candidatos conseguem apresentar: dois mandatos à frente de um dos maiores estados brasileiros e resultados concretos que podem ser examinados.

Isso não significa que sua candidatura seja eleitoralmente forte neste momento.

A chapa formada por Romeu Zema e Eduardo Girão, ambos do Novo, teve o registro aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2 de setembro. Porém, no Datafolha realizado nos dias 1º e 2 de setembro, Zema aparecia com apenas 2% das intenções de voto, atrás de Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos.

Portanto, existem duas perguntas diferentes.

A primeira é eleitoral:

Zema consegue chegar ao segundo turno?

A segunda talvez seja ainda mais importante:

caso chegue ao Palácio do Planalto, ele conseguiria governar?

Porque administrar Minas Gerais e administrar a Presidência da República são operações políticas de escalas completamente diferentes.

Definição curta: a candidatura presidencial de Romeu Zema tenta transformar sua experiência de gestão em Minas Gerais em um projeto nacional de redução do Estado, reformas econômicas e mudança institucional. Seu principal ativo é o histórico executivo. Seu maior risco é tentar executar uma agenda ambiciosa com uma estrutura partidária pequena e elevada dependência de Câmara, Senado e STF.

Quem é Romeu Zema? → Um empresário que entrou tarde na política e rapidamente chegou ao Executivo

Romeu Zema nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1964. Formado em Administração, construiu sua trajetória profissional no Grupo Zema, conglomerado familiar presente em setores como varejo, distribuição de combustíveis, concessionárias e serviços financeiros.

Sua entrada na política aconteceu apenas em 2018.

E foi bastante incomum.

Sem experiência anterior em cargos públicos, Zema venceu a eleição para governador de Minas naquele ano. Quatro anos depois, confirmou que sua primeira vitória não havia sido acidente eleitoral: foi reeleito em 2022 ainda no primeiro turno, com mais de 6 milhões de votos e aproximadamente 56% dos votos válidos.

Esse segundo resultado importa para analisar sua candidatura presidencial.

Zema não é mais o empresário outsider de 2018.

Ele passou mais de sete anos administrando Minas Gerais e deixou antecipadamente o cargo em 22 de março de 2026, transmitindo o governo ao então vice Mateus Simões.

Portanto, qualquer avaliação séria sobre ele precisa abandonar duas caricaturas.

A primeira é tratá-lo simplesmente como “empresário que virou político”.

A segunda é aceitar automaticamente a narrativa de que experiência empresarial equivale a capacidade de governar o Brasil.

Depois de dois mandatos em Minas, existem dados suficientes para uma análise mais exigente.

A candidatura de Romeu Zema em 2026 é competitiva? → Institucionalmente sim; eleitoralmente, ainda não

A candidatura já ultrapassou a fase da especulação.

O Novo registrou a chapa Zema–Eduardo Girão, apresentou seu programa de governo e recebeu aprovação do registro pelo TSE. O plano, chamado de “Plano Implacável”, possui 81 páginas e 20 áreas temáticas.

O problema está na outra parte da equação.

Voto.

No Datafolha divulgado no início de setembro, Zema registrava 2%, enquanto Lula aparecia com 38%, Flávio Bolsonaro com 33%, Augusto Cury com 8%, Ronaldo Caiado com 4% e Renan Santos com 3%.

Isso coloca Zema diante de um paradoxo.

Ele possui mais experiência executiva que vários concorrentes, governa eleitoralmente um estado decisivo e carrega indicadores que pode defender durante a campanha.

Mas ainda não conseguiu transformar esse currículo em preferência presidencial.

Aqui existe uma distinção que campanhas frequentemente ignoram:

reputação administrativa não se converte automaticamente em capital eleitoral nacional.

Ser conhecido como governador de Minas é uma coisa.

Ser percebido como alternativa presidencial por um eleitor de Pernambuco, Pará, Bahia ou Rio Grande do Sul é outra.

Antes de enfrentar o problema da governabilidade, portanto, Zema precisa resolver o problema da escala eleitoral.

O que Zema propõe para o Brasil? → Uma versão ampliada de sua agenda liberal

O programa presidencial mantém boa parte da identidade política construída pelo Novo.

Entre as diretrizes apresentadas estão redução da presença estatal na economia, privatizações, reformas administrativa e previdenciária, revisão de programas governamentais e mudanças institucionais envolvendo o Supremo Tribunal Federal.

Não existe muita ambiguidade ideológica aqui.

Zema pretende disputar a Presidência como candidato liberal na economia e crítico da expansão do Estado.

Isso tem uma vantagem estratégica.

O eleitor consegue entender aproximadamente o que está comprando.

Mas cria também um problema de execução.

Privatizar empresas públicas, alterar estruturas administrativas, reformar a Previdência e modificar regras relacionadas ao STF são projetos que ultrapassam amplamente as competências individuais da Presidência.

Boa parte dessa agenda passa pelo Congresso.

Algumas medidas exigiriam mudança constitucional.

E PEC não se aprova com coletiva de imprensa.

A Constituição exige votação em dois turnos na Câmara e no Senado e apoio de três quintos dos integrantes de cada Casa. Na Câmara, isso significa pelo menos 308 deputados.

É justamente aí que começa o verdadeiro teste de Zema.

O governo Zema em Minas foi bem-sucedido? → Há avanços mensuráveis, mas a fotografia exige contexto

Governos gostam de produzir narrativas.

Oposição também.

Dados são menos obedientes.

Uma leitura equilibrada do período Zema mostra avanços relevantes principalmente na situação fiscal, no mercado de trabalho e em indicadores educacionais. Ao mesmo tempo, Minas encerrou seu governo ainda carregando uma dívida gigantesca e problemas estruturais que não desapareceram.

As contas públicas melhoraram? → Sim, mas a dívida continua sendo um problema estrutural

Minas Gerais terminou 2025 com superávit fiscal de R$ 1,108 bilhão e completou cinco anos consecutivos de equilíbrio fiscal.

Isso é relevante.

O Estado havia atravessado uma crise severa antes da chegada de Zema, incluindo dificuldades para pagamento regular de servidores e fornecedores.

Entretanto, o balanço de 2025 também mostra limites importantes.

A despesa de pessoal chegou a 48,22% da Receita Corrente Líquida. Ficou abaixo do limite máximo de 49% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, mas permaneceu acima do limite prudencial de 46,55%.

Além disso, o déficit previdenciário ainda alcançou R$ 19,74 bilhões.

Ou seja:

equilíbrio fiscal não significa problema fiscal resolvido.

Essa diferença importa.

A enorme dívida mineira acabou sendo reorganizada por meio do Propag. O saldo confessado de R$ 179,3 bilhões foi refinanciado por 360 meses, com IPCA e juros reais de 0% ao ano, mediante as condições previstas no programa.

Portanto, existe mérito em estabilizar as contas e reconstruir previsibilidade financeira.

Mas seria exagerado transformar isso na afirmação de que Zema “resolveu a dívida de Minas”.

Ele melhorou a arquitetura financeira do problema.

O passivo continua enorme.

A economia mineira cresceu? → Sim, mas 2025 pede alguma moderação na narrativa

O PIB de Minas Gerais alcançou aproximadamente R$ 1,157 trilhão em 2025.

É um número expressivo.

Mas o dado que realmente interessa é o crescimento real: 1,4% naquele ano.

Portanto, usar apenas o tamanho nominal do PIB para vender um milagre econômico seria marketing, não análise.

Por outro lado, o mercado de trabalho oferece argumentos mais fortes para o ex-governador.

Minas terminou 2025 com saldo positivo de aproximadamente 79 mil empregos formais, segundo dados baseados no Novo Caged. No quarto trimestre, a taxa de desemprego caiu para 3,8%, o menor nível da série iniciada em 2012.

Existe aqui uma limitação metodológica importante.

Nenhum governador controla sozinho emprego, PIB ou investimento.

Política monetária, crescimento nacional, commodities, mineração, agropecuária, ciclos externos e decisões empresariais também influenciam esses resultados.

Portanto:

fato: o mercado de trabalho mineiro apresentou resultados fortes.

interpretação: políticas estaduais de ambiente de negócios podem ter contribuído.

exagero: atribuir sozinho ao governador todo emprego criado no estado.

Essa separação melhora a análise.

E a educação? → O Ideb terminou seu governo em trajetória positiva

Os dados de 2025 do Inep mostram avanço em todas as etapas avaliadas em Minas.

Entre 2023 e 2025, o Ideb passou:

  • de 6,3 para 6,6 nos anos iniciais;
  • de 4,9 para 5,5 nos anos finais;
  • de 4,2 para 4,6 no ensino médio.

Na rede pública também houve crescimento nas três etapas.

Esse é um indicador particularmente interessante porque mede uma política pública cuja maturação costuma ultrapassar ciclos eleitorais.

Não transforma automaticamente Minas no modelo definitivo da educação brasileira.

Mas é evidência favorável ao balanço da gestão.

O que Minas ensina sobre a governabilidade de Zema? → Talvez seja a parte mais interessante de sua trajetória

Aqui a análise fica mais sofisticada.

Governabilidade não significa simplesmente aprovar projetos.

Significa construir condições políticas para que diferentes instituições aceitem participar da execução de uma agenda.

E Zema precisou aprender isso.

Seu primeiro mandato começou com uma postura muito mais próxima da lógica empresarial: estabelecer objetivos, pressionar pela execução e criticar resistências.

Só que Parlamento não é conselho de administração.

Deputado não é diretor subordinado ao CEO.

Com o tempo, o governo precisou negociar.

A reforma da Previdência mineira é um bom exemplo. Em 2020, a proposta foi aprovada por 52 votos a 20, mas o texto final incorporou mudanças relevantes produzidas durante as negociações na Assembleia Legislativa.

Isso não demonstra apenas capacidade de aprovação.

Demonstra algo mais importante:

Zema aprendeu que governar exige aceitar alterações no próprio projeto.

No final de seu segundo mandato, outro teste importante apareceu.

Em dezembro de 2025, a Assembleia aprovou por 53 votos a 19 o projeto que autorizava a privatização da Copasa, uma das agendas mais sensíveis e ideologicamente identificadas com seu governo.

A comparação entre o início e o final de seus mandatos revela uma curva de aprendizado político.

E isso talvez seja mais relevante para uma eventual Presidência do que qualquer discurso sobre gestão eficiente.

Governabilidade começa quando o Executivo entende que convencer é tão importante quanto mandar.

Zema conseguiria governar com a Câmara? → Esse provavelmente seria seu maior problema

Aqui os números são brutais.

Na composição atual da Câmara dos Deputados, o Novo possui apenas cinco deputados federais.

Cinco.

Enquanto isso, um amplo bloco formado por União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB-Cidadania e Podemos reúne atualmente 273 parlamentares.

A composição da Câmara mudará com a própria eleição de 2026.

Portanto, seria metodologicamente errado projetar esses números diretamente para 2027.

Mas a fotografia atual mostra o tamanho do problema.

Mesmo que o Novo multiplique sua bancada na próxima eleição, é extremamente improvável imaginar um presidente Zema governando apenas com seu partido.

Ele precisaria conversar com:

  • PSD;
  • União Brasil;
  • PP;
  • Republicanos;
  • MDB;
  • PL;
  • Podemos;
  • e provavelmente outros partidos em votações específicas.

Isso cria um dilema ideológico.

Parte relevante da identidade do Novo nasceu justamente da crítica ao presidencialismo de coalizão, à distribuição política de cargos e à relação tradicional entre Executivo e Congresso.

Só que a matemática não adere a manifestos.

Um presidente pode recusar o fisiologismo.

Não pode recusar 513 deputados.

A solução seria tentar construir uma coalizão programática, baseada em projetos específicos, participação institucional e negociação transparente.

É possível.

É também muito mais difícil do que parece em campanha.

E existe outro problema.

Zema e outros candidatos vêm criticando o atual peso das emendas parlamentares sobre o orçamento, mas ainda há pouca clareza sobre como essa relação seria reorganizada. Em 2026, estão previstos cerca de R$ 61 bilhões em emendas, dos quais R$ 37,8 bilhões são impositivos.

Um presidente que chega prometendo reduzir justamente um dos principais instrumentos de poder do Congresso não começaria sua administração em terreno exatamente amigável.

E no Senado? → Para Zema, pode ser ainda mais importante que a Câmara

Eduardo Girão oferece à chapa experiência legislativa e conhecimento do funcionamento do Senado.

Mas vice-presidente não é bancada.

Se eleito, Zema dependeria fortemente do resultado das eleições senatoriais e da construção de alianças depois do pleito.

Isso se torna particularmente importante porque várias partes de sua agenda institucional passam diretamente pelo Senado.

Um exemplo é o STF.

Um presidente pode indicar um ministro para o Supremo.

Não pode simplesmente nomeá-lo.

O indicado precisa passar por sabatina e receber aprovação da maioria absoluta do Senado: pelo menos 41 dos 81 senadores.

Para mudanças constitucionais, a barreira é ainda maior: três quintos da Casa.

Consequentemente, o desempenho das forças políticas alinhadas a Zema nas eleições para o Senado seria um dos melhores indicadores antecipados de sua possível governabilidade.

Não basta olhar para quem vence a Presidência.

É preciso olhar para quem estará sentado nas outras 594 cadeiras do Congresso Nacional.

Esse é um erro recorrente na cobertura de eleições presidenciais.

Como seria a relação de Zema com o STF? → É onde existe maior risco de conflito institucional

O programa de Zema apresenta mudanças diretamente relacionadas ao funcionamento do Supremo.

Entre as propostas estão mecanismos para limitar decisões individuais de ministros e mudanças nas competências da Corte. O candidato também já defendeu alterações no modelo de escolha e permanência dos ministros.

Durante a campanha, o tom também se tornou mais duro.

Na crise institucional recente envolvendo Alexandre de Moraes, Zema ampliou publicamente suas críticas ao ministro e ao funcionamento do tribunal.

Isso torna provável uma relação inicial de tensão caso seja eleito.

Mas existe uma diferença essencial entre criticar o Supremo e conseguir reformá-lo.

Boa parte das mudanças pretendidas depende do Congresso.

Algumas dependem de PEC.

Outras provavelmente acabariam sendo submetidas ao próprio controle de constitucionalidade do STF.

Portanto, qualquer tentativa de transformar reformas institucionais em confronto pessoal permanente poderia consumir enorme capital político.

O caminho com maior capacidade de execução seria outro:

apresentar propostas juridicamente robustas, construir maioria parlamentar e preservar canais institucionais de negociação.

O presidente dispõe de influência enorme.

Mas não dispõe de poder constituinte individual.

E essa é justamente uma das proteções do sistema brasileiro.

Então Zema teria governabilidade? → Potencial existe; a coalizão necessária ainda não

Se tivéssemos de transformar a análise em uma matriz estratégica, eu colocaria assim:

DimensãoAvaliaçãoMotivo
Experiência executivaAltaMais de sete anos governando Minas
Disciplina fiscalAltaCinco anos de equilíbrio fiscal, embora persistam passivos estruturais
Capacidade legislativa demonstradaMédia/altaEvoluiu durante os mandatos e aprovou reformas difíceis
Estrutura partidária federalBaixaNovo possui bancada pequena
Capacidade de coalizão nacionalAinda não comprovadaGovernar MG e montar maioria nacional são desafios distintos
Relação potencial com o SenadoDependência altaReformas e indicações ao STF passam pela Casa
Relação potencial com o STFRisco elevado de tensãoAgenda explicitamente revisionista e retórica crítica
Potencial geral de governabilidadeMédioPode crescer muito dependendo do Congresso eleito

Essa é uma avaliação editorial, não uma previsão estatística.

O ponto principal é que Zema possui mais capacidade potencial de governar do que estrutura política disponível hoje para governar.

Essa diferença é decisiva.

Quais cenários existem para um eventual governo Zema? → Três caminhos parecem plausíveis

Cenário 1 — Coalizão pragmática

Zema vence a eleição e negocia uma maioria de centro-direita envolvendo Novo, parte do PL, PSD, PP, União Brasil, Republicanos, MDB e outras legendas.

Nesse cenário, provavelmente conseguiria avançar em parte da agenda econômica.

Mas precisaria moderar ou negociar vários pontos.

É provavelmente o cenário institucionalmente mais funcional.

Também seria aquele em que o Zema presidente mais se distanciaria da imagem de outsider político.

Cenário 2 — Vitória eleitoral acompanhada por uma onda parlamentar

A candidatura cresce, impulsiona deputados e senadores do Novo e de partidos ideologicamente próximos e chega ao Planalto acompanhada por uma base parlamentar muito maior.

Nesse caso, reformas estruturais ganhariam viabilidade.

Mesmo assim, uma PEC continuaria exigindo 308 deputados e três quintos do Senado.

Ou seja:

até uma “onda Zema” precisaria negociar.

Cenário 3 — Presidente sem coalizão

Este é o cenário de maior risco.

Zema vence a eleição apoiado em forte discurso contra a política tradicional, mantém postura confrontacional diante do Congresso e amplia simultaneamente o conflito com o STF.

O resultado previsível não seria necessariamente ruptura institucional.

Poderia ser algo muito mais banal — e devastador para qualquer governo:

paralisia.

Projetos represados.

Medidas judiciais.

Derrotas legislativas.

Orçamento disputado.

Popularidade consumida.

Um presidente pode chegar a Brasília prometendo destruir o sistema.

O sistema costuma responder fazendo o presidente descobrir para que servem os votos dos outros.

O que eu vejo na prática? → O Zema de 2026 já não é o Zema de 2018

Existe um erro recorrente quando empresários entram na política.

Imaginar que eficiência gerencial substitui arquitetura institucional.

Não substitui.

Trabalhando com estratégia, governança e ecossistemas, existe um padrão que aparece o tempo inteiro: uma boa solução fracassa quando quem a criou ignora os atores capazes de bloqueá-la.

Uma organização pode possuir estratégia brilhante.

Se conselho, investidores, equipe, parceiros e reguladores não estiverem minimamente alinhados, execução vira ficção.

Governos funcionam da mesma maneira, apenas em escala muito maior.

O primeiro mandato de Zema mostrou dificuldades típicas de quem chega à política carregando uma mentalidade empresarial.

Mas existe um dado que considero mais relevante que essa crítica:

ele aparentemente aprendeu.

A reforma previdenciária não saiu exatamente como entrou.

Projetos importantes dependeram da Assembleia.

A solução da dívida mineira envolveu instrumentos federais.

A privatização da Copasa precisou de maioria política.

Isso significa que a experiência de Minas pode ter ensinado a Zema justamente aquilo que um presidente precisa descobrir rapidamente:

o Executivo governa, mas não governa sozinho.

O problema é que Brasília multiplica esse desafio várias vezes.

Minas tem 77 deputados estaduais.

A Câmara possui 513 deputados.

O Senado adiciona outros 81 atores institucionais.

Há governadores, tribunais, Ministério Público, órgãos de controle, movimentos sociais, setores econômicos, servidores, municípios e uma Federação extremamente heterogênea.

Governar o Brasil não é escalar uma empresa.

É administrar um ecossistema de poder.

E ecossistemas não respondem a ordens.

Respondem a incentivos, confiança, negociação e capacidade de coordenação.

O que a candidatura ainda precisa provar? → Cinco perguntas valem mais que cem discursos

Até outubro, eu acompanharia principalmente cinco sinais:

  • Zema conseguirá ultrapassar o nicho eleitoral atual?
  • Quais partidos aceitarão construir uma relação política com seu governo?
  • Quantos deputados e senadores alinhados ao projeto serão eleitos?
  • Sua agenda para o STF será conduzida institucionalmente ou transformada em confronto permanente?
  • Quanto do programa econômico sobreviverá quando precisar alcançar 308 votos na Câmara?

Essas perguntas permitem avaliar a candidatura sem torcida.

E esse deveria ser o objetivo.

Eleições não precisam ser tratadas como campeonato de futebol.

O eleitor está selecionando a liderança de uma estrutura que administra trilhões de reais, influencia a vida de mais de 200 milhões de pessoas e precisa funcionar dentro de uma arquitetura constitucional complexa.

Currículo importa.

Ideologia importa.

Plano de governo importa.

Mas capacidade de execução institucional importa tanto quanto.

Então, qual é o potencial de um governo Zema? → Maior do que sua bancada atual, menor do que sua narrativa de gestão sugere

Minha leitura final é relativamente simples.

Romeu Zema possui credenciais executivas reais.

Há indicadores positivos no governo de Minas, especialmente no equilíbrio fiscal, mercado de trabalho e educação.

Também existe evidência de que sua capacidade de articulação política amadureceu durante os dois mandatos.

Isso diferencia Zema de candidaturas essencialmente baseadas em exposição pública ou promessa.

Mas o salto para Brasília não pode ser tratado como expansão de franquia.

Seu partido ainda possui pequena representação federal.

Sua agenda exige mudanças legislativas profundas.

Algumas dependem de PEC.

Sua relação política com o STF tende a começar em clima de tensão.

E suas críticas ao funcionamento atual do Congresso podem dificultar justamente a construção da coalizão necessária para colocar seu programa em prática.

Portanto, eu não classificaria Zema como um candidato sem capacidade de governar.

Também não compraria a narrativa de que bastaria aplicar “o modelo Minas” no Brasil.

A análise mais defensável está no meio:

Zema demonstrou capacidade de gestão e aprendeu a negociar durante seus mandatos em Minas. O desafio presidencial é provar que consegue transformar esse aprendizado em uma coalizão nacional suficientemente ampla para governar sem abandonar completamente o projeto que o levou ao Planalto.

Esse talvez seja o teste definitivo da candidatura.

Porque ganhar uma eleição exige votos.

Governar exige arquitetura.


Leia também no Akilli Blog

Para comparar a arquitetura eleitoral e o problema da governabilidade entre os principais nomes da disputa, leia O que levou Flávio Bolsonaro até o pleito de 2026?.

Também vale comparar este cenário com nossa análise sobre o que esperar de um possível quarto mandato de Lula.

Comparar candidatos apenas por intenção de voto produz uma fotografia incompleta. Compare também histórico executivo, bancada provável, agenda econômica, capacidade de coalizão e relacionamento institucional.


O que define o potencial de governabilidade de Romeu Zema?

  • experiência de mais de sete anos no Executivo mineiro;
  • melhora de indicadores fiscais e do mercado de trabalho;
  • aprendizado gradual na relação com o Legislativo estadual;
  • pequena estrutura partidária no Congresso atual;
  • necessidade de alianças muito além do Novo;
  • forte dependência do Senado para reformas e indicações ao STF;
  • potencial conflito institucional com o Supremo;
  • necessidade de conciliar identidade liberal com presidencialismo de coalizão.

Exemplo prático: a reforma previdenciária de Minas foi aprovada, mas depois de alterações negociadas pela Assembleia. Esse caso resume o principal aprendizado que Zema precisaria transportar para Brasília: executar não significa necessariamente aprovar o projeto exatamente como ele saiu do Executivo.

O desafio de Zema não é provar que sabe administrar. É provar que sabe construir poder suficiente para executar sem transformar negociação em renúncia ao próprio projeto.


Fontes externas principais

TSE — validação das candidaturas presidenciais de 2026

Câmara dos Deputados — composição atual das bancadas

Inep — resultados do Ideb 2025 em Minas Gerais

Agência Minas — balanço fiscal de Minas em 2025

Senado Federal — como funciona a aprovação de ministros do STF

Nota metodológica

Esta análise considera informações públicas disponíveis até 7 de setembro de 2026. Indicadores econômicos não são atribuídos integralmente ao governo estadual, já que sofrem influência de fatores nacionais e internacionais. A composição do Congresso apresentada corresponde à legislatura existente durante a campanha e será alterada pelas eleições de 2026. Pesquisas eleitorais representam fotografias do momento e não previsões do resultado das urnas.

O artigo separa deliberadamente fato, interpretação e avaliação editorial, especialmente ao analisar governabilidade futura, que depende de variáveis ainda desconhecidas — principalmente a composição da Câmara e do Senado a partir de 2027.

Erik Lima

Ao longo dos últimos anos, venho desenvolvendo soluções criativas e inovadoras na interseção entre comunicação, cultura, tecnologia e entretenimento. Sou fundador da Akilli Brasil, uma “empresa que cria” — marcas, conteúdos, sistemas, produtos digitais, programas de mídia e plataformas que conectam ideias a operação.

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