Data centers no Brasil: progresso ou extrativismo digital?
O Brasil está prestes a fazer uma aposta bilionária para se tornar um dos grandes destinos mundiais de data centers. A proposta parece irresistível: atrair big techs, ampliar a infraestrutura de inteligência artificial, estimular investimentos e aproveitar nossa matriz energética.
Eu quero que dê certo.
Justamente por isso, acho que precisamos desconfiar da facilidade com que essa narrativa está sendo vendida.
O Senado aprovou em 1º de setembro de 2026 o PL 278/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata. O projeto segue agora para sanção presidencial. Entre os incentivos da instalação de data centers no Brasil estão suspensões de Imposto de Importação, IPI e PIS/Cofins. A renúncia estimada pelo governo chega a aproximadamente R$ 5,2 bilhões apenas em 2026.
Redata, em definição simples, é uma política de incentivo fiscal destinada a tornar o Brasil mais competitivo na disputa internacional por grandes infraestruturas de processamento, armazenamento de dados e inteligência artificial.
A ideia não é absurda. O problema está em descobrir quem captura o valor e quem carrega o risco.
O Redata oferece contrapartidas suficientes?
O projeto não entrega incentivos sem exigir nada em troca.
Empresas beneficiadas deverão destinar ao mercado brasileiro pelo menos 10% da capacidade instalada com o regime, investir no país o equivalente a 2% do valor dos equipamentos incentivados em pesquisa, desenvolvimento e inovação, utilizar energia enquadrada nos critérios previstos pelo programa e respeitar um índice de eficiência hídrica de até 0,05 litro por kWh, aferido anualmente.
Há ainda regras diferenciadas para Norte, Nordeste e Centro-Oeste: nessas regiões, os percentuais podem cair respectivamente para 8% de capacidade e 1,6% de P&D, embora 40% dos investimentos previstos em projetos de economia digital devam ser direcionados a essas regiões.
Portanto, dizer que não existem contrapartidas seria incorreto.
Minha questão é outra: elas são proporcionais ao tamanho do ativo estratégico que o Brasil está colocando na mesa?
Estamos falando de território, infraestrutura elétrica, recursos naturais, renúncia tributária e acesso a um dos mercados digitais mais importantes do mundo.
Dez por cento me parece pouco diante disso.
Dois por cento em P&D também merece escrutínio — especialmente sobre onde esse dinheiro será aplicado, quem escolherá os projetos, quem ficará com a propriedade intelectual e quanto desse conhecimento efetivamente criará empresas, pesquisadores e tecnologia brasileira.
Por que data centers no Brasil deveriam preocupar tanto na questão ambiental?
Porque data center não é uma abstração chamada “nuvem”.
A nuvem tem endereço, transformador, servidor, sistema de refrigeração e conta de energia.
A Agência Internacional de Energia estima que os data centers consumiram cerca de 415 TWh de eletricidade mundialmente em 2024. A projeção é chegar perto de 945 TWh em 2030. Além disso, instalações dedicadas à IA concentram cargas elétricas gigantescas em regiões específicas, o que pode transformar um impacto global relativamente pequeno em um problema local bastante relevante.
E essa preocupação não está sendo inventada por quem é contrário à tecnologia.
Em agosto, uma audiência da própria Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado reuniu especialistas que alertaram para consumo de água, pressão sobre o sistema elétrico, possíveis aumentos de custos para consumidores e benefícios sociais insuficientes.
O Conama também mantém processo específico tratando da necessidade urgente de diretrizes nacionais e salvaguardas socioambientais e climáticas para o licenciamento de data centers.
Isso deveria acender uma luz amarela.
Eficiência hídrica resolve o problema da água?
Ajuda. Não resolve tudo.
Estabelecer um WUE máximo de 0,05 L/kWh é melhor do que deixar o tema completamente aberto. Porém, uma média anual de eficiência não responde sozinha a perguntas territoriais fundamentais.
De qual fonte sairá a água? Qual é a disponibilidade daquela bacia? O que acontece durante uma seca? Existem outros grandes consumidores na mesma região? Qual será o impacto acumulado de dez instalações próximas? Quem terá prioridade em uma situação crítica?
É aí que sustentabilidade deixa de ser indicador de PowerPoint e vira governança territorial.
O maior risco pode ser econômico, e não tecnológico
Minha preocupação central com o Redata e a chegada de data centers no Brasil é que o país construa infraestrutura sem construir ecossistema.
Imagine uma cidade recebendo um grande empreendimento.
O proprietário do terreno ganha. A construção civil ganha. Empresas de infraestrutura ganham. Fornecedores de energia e conectividade ganham. Consultorias, intermediários e operadores especializados ganham.
Durante alguns anos, os investimentos impressionam.
Então o data center entra em operação.
A pergunta passa a ser: o que permaneceu no território além do prédio?
Quantas empresas brasileiras nasceram daquela infraestrutura? Quantos pesquisadores foram financiados? Quantas startups ganharam acesso subsidiado a processamento? Quantos modelos de IA brasileiros foram treinados? Quanto da propriedade intelectual permaneceu aqui? Qual indústria nacional de equipamentos surgiu?
Se essas respostas forem fracas, teremos conseguido atrair capital sem necessariamente construir capacidade nacional.
Se o Brasil oferece energia, território, infraestrutura, recursos naturais e renúncia fiscal, precisa receber muito mais do que racks de servidores em troca.
Esse é o ponto.
Estamos diante de um novo ciclo de captura de renda com data centers no Brasil?
Aqui entra minha maior reticência.
O Brasil tem uma longa história de grandes ciclos econômicos acompanhados por discursos grandiosos sobre desenvolvimento. E já aprendemos que investimento gigantesco, urgência política, contratos concentrados e fiscalização insuficiente formam uma combinação perigosa.
Copa do Mundo e Olimpíadas não provam que o Redata terminará em corrupção. Fazer essa associação automaticamente seria preguiça intelectual.
Mas aqueles episódios deixam uma lição institucional válida: quanto maior o volume de dinheiro, infraestrutura e poder econômico envolvidos, mais forte deveria ser a governança — e não o contrário.
Por isso, não precisamos acusar ninguém de estar preparando um esquema para perceber um risco evidente de captura.
Se valorização imobiliária, acesso à rede elétrica, licenciamento, contratos de construção, fornecedores estratégicos e incentivos ficarem concentrados em poucos atores bem posicionados, podemos assistir a uma enorme transferência de valor para grupos privados sem retorno proporcional para a sociedade.
E é justamente aí que a população precisa prestar atenção.
O que a sociedade deveria começar a cobrar agora?
Antes de comemorar bilhões anunciados, eu gostaria de ver respostas públicas, auditáveis e atualizadas para sete perguntas:
- Quem são os beneficiários finais dos empreendimentos, terrenos, contratos e incentivos?
- Quanto de dinheiro público será renunciado por emprego permanente efetivamente criado?
- Qual será o consumo de água e energia de cada instalação e qual o impacto acumulado no território?
- Como a população local participará dos processos de licenciamento e decisão?
- Quanto da capacidade computacional incentivada chegará a universidades, startups e empresas brasileiras?
- Quem receberá os investimentos obrigatórios em P&D e quais resultados deverão entregar?
- Quais metas permitirão cancelar benefícios quando uma empresa não produzir o impacto socioeconômico prometido?
Essas informações deveriam ser públicas por padrão.
Não enterradas em relatórios técnicos impossíveis de encontrar.
O que eu vejo na prática
Trabalhando com inovação e modelagem de ecossistemas, uma coisa me incomoda especialmente: confundimos com frequência atração de investimento com desenvolvimento de ecossistema.
São coisas diferentes.
Um investimento pode movimentar bilhões e ainda deixar pouca capacidade distribuída no território.
Um ecossistema saudável cria conhecimento, fornecedores, talentos, empresas, infraestrutura compartilhada, redes de relacionamento e capacidade de continuar inovando mesmo depois que o investidor original for embora.
Essa mesma discussão apareceu quando analisamos na Akilli o avanço do capital estrangeiro sobre setores estratégicos brasileiros. Vale complementar esta leitura com O Brasil virou a bola da vez para investimentos estrangeiros? e com o caso industrial analisado em Onde fica a fábrica BYD Brasil e por que isso importa?.
O princípio é o mesmo: investimento estrangeiro não é desenvolvimento automático.
É matéria-prima para desenvolvimento. A transformação depende de estratégia e governança.
Então o Brasil deveria rejeitar os data centers?
Não.
Seria um erro estratégico.
A inteligência artificial está aumentando dramaticamente a demanda global por infraestrutura computacional. Energia disponível, capacidade de geração renovável, mercado interno, conectividade e posição geopolítica dão ao Brasil ativos reais nessa disputa.
A oportunidade existe.
E talvez seja justamente por ela ser tão grande que deveríamos negociar melhor.
A posição inteligente não é “data center não”.
É: data center, sim — mas dentro de uma política nacional de desenvolvimento tecnológico, energético, hídrico e industrial.
Isso significa transformar acesso ao mercado brasileiro em poder de negociação.
Significa exigir formação profissional, fornecedores nacionais, pesquisa aplicada, transparência hídrica, compensação territorial, capacidade computacional para ciência brasileira, desenvolvimento de startups e mecanismos auditáveis de transferência tecnológica.
O que é fato, interpretação e recomendação?
O fato é que o Congresso aprovou incentivos substanciais e estabeleceu contrapartidas ambientais, tecnológicas e econômicas. O projeto aguarda sanção e ainda dependerá de regulamentação em vários aspectos.
Minha interpretação é que as contrapartidas atuais representam um ponto de partida, mas ainda não demonstram que o valor capturado pela sociedade brasileira será proporcional aos ativos colocados à disposição desses empreendimentos.
Minha recomendação é simples: acompanhem esse projeto.
Imprensa, universidades, organizações ambientais, startups, pesquisadores, empreendedores, sociedade civil e órgãos de controle deveriam observar atentamente cada regulamentação, licenciamento e grande contrato decorrente dessa política.
Porque depois que bilhões forem investidos e territórios inteiros se reorganizarem em torno dessa infraestrutura, corrigir um desenho ruim ficará muito mais caro.
O Brasil ainda pode fazer esse jogo direito
Aqui está a parte mais importante: não considero o cenário perdido.
Pelo contrário.
O Brasil está em uma posição rara. Big techs precisam de energia, capacidade computacional e novos territórios. Nós temos ativos que o mundo está procurando.
Quem precisa negociar melhor não somos nós?
Em vez de oferecer o país como destino barato para processamento estrangeiro, podemos usar esse momento para construir capacidade computacional brasileira, formar talentos, financiar ciência, estimular empresas nacionais e transformar nossa vantagem energética em uma nova indústria tecnológica.
Essa é a oportunidade.
Mas oportunidade sem governança também é oportunidade para captura.
Por isso, a sociedade brasileira deveria observar o Redata com lupa — não para impedir o futuro, mas para garantir que, desta vez, o futuro deixe alguma coisa aqui.
Na Akilli Brasil, defendemos inovação com governança, evidência e capacidade de execução. Tecnologia não deveria ser tratada como espetáculo, assim como sustentabilidade não pode servir apenas como argumento comercial.
Inovação que consome recursos brasileiros precisa criar capacidade brasileira.
Se não conseguirmos garantir isso, corremos o risco de descobrir daqui a dez anos que construímos uma das infraestruturas digitais mais modernas do planeta para enriquecer poucos atores enquanto socializamos os custos.
E aí não será revolução tecnológica.
Será apenas um velho modelo econômico rodando em servidores novos.
As principais referências externas para esta análise são o texto e acompanhamento do PL 278/2026 no Senado Federal, a explicação das contrapartidas do Redata pela Agência Senado, os estudos da Agência Internacional de Energia sobre energia e IA, a audiência do Senado sobre os riscos da expansão dos data centers e o processo do Conama sobre salvaguardas socioambientais.
